Porque as crianças não se devem especializar cedo demais

Para aprender o jogo, é importante vivê-lo em diferentes posições.

Um treinador de futebol de formação agachado ao lado de um jovem jogador na linha lateral, apontando para o campo enquanto conversam.

Não demora muito até as posições começarem a ficar definidas numa equipa de formação.

Os treinadores conhecem os jogadores, percebem onde se sentem mais confortáveis e constroem a equipa a partir daí. Um papel familiar ajuda o jogador e também ajuda a equipa.

É muitas vezes assim que começa a especialização precoce. Não como uma decisão consciente, mas simplesmente porque algo funciona.

Um jogador rende bem numa posição e volta a jogar ali na semana seguinte. E novamente na outra. Com o tempo, deixamos de falar apenas de onde a criança joga e começamos a falar daquilo que ela é: defesa, médio, avançado ou guarda-redes.

Para uma criança que ainda está a aprender o jogo, isso pode acontecer demasiado cedo.

Primeiro uma base ampla, depois a especialização

A especialização é uma parte natural do desenvolvimento de um jogador. À medida que crescem, os papéis tornam-se mais claros e passa a fazer sentido concentrar-se mais numa ou duas posições.

Mas antes disso é importante construir uma base ampla.

Até ao futebol de 11, há muito a ganhar ao experimentar o jogo em diferentes posições. Não porque todas as crianças tenham de jogar em todo o lado, mas porque cada papel permite conhecer diferentes partes do jogo.

Jogar em várias posições também pode ajudar um jogador a compreender melhor aquela que mais tarde se tornará a sua posição principal. Permite perceber melhor aquilo de que os colegas precisam, como os espaços mudam e como uma decisão numa zona do campo influencia o que acontece a seguir.

Grande parte dessa compreensão vem de ter vivido essas situações.

Só podemos descobrir aquilo que damos oportunidade de mostrar

Há outro problema em especializar demasiado cedo.

Se uma criança joga sempre na mesma posição, o treinador vê sobretudo como ela funciona naquele lugar.

Isso pode tornar-se um ciclo. O jogador joga bem ali, por isso continua ali. E, como continua ali, surgem poucas oportunidades para descobrir o que mais poderia desenvolver.

Aos nove ou dez anos, ainda sabemos muito pouco sobre o jogador em que aquela criança se poderá tornar.

As crianças desenvolvem-se a ritmos diferentes. As características físicas mudam, mas também mudam a técnica, a coordenação, a confiança e a compreensão do jogo.

Aquilo que funciona melhor hoje não nos diz necessariamente onde esse jogador será mais forte dentro de alguns anos.

A parte mais difícil de ser treinador

É relativamente fácil ver aquilo que um jogador já faz bem. Mais difícil é perceber o que ainda precisa de ter oportunidade de desenvolver.

Por vezes, isso significa não escolher a solução mais fácil para o jogo seguinte.

Numa posição menos familiar, as decisões podem demorar mais e o posicionamento pode não surgir naturalmente de imediato. Outro jogador talvez desempenhasse melhor essa função naquele dia.

Isso também faz parte da aprendizagem.

As posições também precisam de continuidade. Mudar constantemente as crianças de posição sem lhes dar tempo para compreender um papel não cria automaticamente melhores jogadores. O objetivo não é acumular o maior número possível de posições.

O objetivo é manter possibilidades suficientes em aberto enquanto as crianças continuam a construir a sua compreensão do jogo.

À medida que se aproximam do futebol de 11 e a especialização se torna mais relevante, há muito valor em já terem visto o futebol a partir de diferentes zonas do campo.

Uma posição pode ser a função de uma criança hoje. Não tem de definir o jogador em que se irá tornar.